terça-feira, Maio 24, 2011

Silêncios...

Entretanto vou conhecendo os silêncios. Misturo-os em solventes universais, filtro-os em soluções e descubro-me noutra revelação de alquimias silenciosas. Todos os silêncios soam de modo diferente agora que sei que a minha noite tem o tamanho da tua.
Já conheço de cor os teus silêncios, também conheço a cor deles, assim como conheço essa tua chuva de prata. Conheço os teus apelos silenciosos e reconheço as palavras que me devolves nesse diálogo amordaçado de sentimentos.
E agora sou eu quem recusa falar, sou eu quem usa o silêncio para diminuir a distância que nos une. Vem ouvir com a tua boca o que tenho para te dizer, vem conhecer as palavras que só assim te direi.

segunda-feira, Fevereiro 21, 2011

Tempestade...

Naquela divisão, deitou-se cerrou os olhos para não assistir ao desfile de ausências e das imagens que teimavam em embalar o seu sono. Nessa divisão às escuras, o silêncio deitou-se na cama ao seu lado e aconchegado no seu peito, sussurrou-lhe que todas as horas eram iguais e que de todas as noites, esta era apenas mais uma. Mais uma noite igual a tantas outras.
Ao seu lado a janela e o som da chuva nas vidraças como que a marcar os passos que queria ouvir. A chuva que em suaves murmúrios começou por anunciar a sua chegada. A respiração ofegante, o silêncio incauto e a chuva lá fora. Como se o mundo dos seus afectos pudesse ser menos árido para lá do vidro.
A mesma sucessão de pensamentos e de recordações em vagas múltiplas como os pingos de chuva que se desfaziam no vidro lá fora em intensidade crescente. O prenúncio da tempestade de emoções ainda por vir.
O desassossego, a inquietude e bátegas violentas. A tempestade lá fora e no interior também.O ribombar dos trovões e a raiva acumulada. Chuva, mais chuva ainda e o vento que abriu a janela de par em par. A grande tempestade acabou de começar.

quarta-feira, Fevereiro 02, 2011

Obituário...

Anunciamos com pesar a sua partida. O seu corpo foi descoberto pelos vizinhos circundantes que estranharam a ausência e o cheiro a putrefacção. Não deixou saudades, talvez porque tenha passado demasiado tempo. O corpo não será velado e foram dispensadas as exéquias. Anunciamos a morte daquilo que um dia nos uniu e o comentário dos presentes dito em surdina e com laivos de falsa consternação foi o usual: "foi melhor assim".

terça-feira, Janeiro 25, 2011

Conquista...

Não me conquistes com a minha música preferida se não a souberes de cor. De nada adianta se não a souberes sentir como eu. Não me conquistes com o meu perfume preferido se ele em ti não tem o aroma que eu procuro. Não me conquistes com emoções débeis nem com palavras vazias. Não me conquistes com vitórias fáceis porque nem todas as batalhas são dignas de vitórias. Não me conquistes com o adocicado das surpresas e com o toque aveludado da facilidade. Toda a gente sabe que eu vivo de muito mais do que isso. Eu sou o risco incalculado, o sabor mais amargo e o obstáculo na caminho. Eu sou o desafio difícil, a derrota e a vitória iminentes e o veneno sem antídoto conhecido. Eu deixo as cartas na mesa, elevo a fasquia e não deixo margem para subterfúgios...és tu quem decide se queres ou não ir a jogo.

terça-feira, Janeiro 11, 2011

Cicatrizes...

Trago em mim tantas cicatrizes. Aquelas que conheces e as que escondo. Todas elas formam um mapa das palavras que não se dizem e dos momentos impregnados de silêncios. Trago em mim as cicatrizes dos dias passados e as promessas dos dias que ainda estão por vir. Trago em mim as cicatrizes do sentir amordaçado e dos silêncios dolorosos. Trago em mim essas cicatrizes, as que me fizeram inadvertidamente e as que me provocaram de propósito. Trago também as mais profundas, aquelas que fiz intencionalmente. Trago essas cicatrizes que nada mais são do que mapas de dor e de refúgios onde ninguém conseguiu chegar. Trago em mim tantas cicatrizes. Tantas cicatrizes e tantas feridas por cicatrizar.

Colecções...

Todas as colecções são colecções de memórias, de recordações e de momentos. Haverá quem coleccione selos enquanto outros coleccionam calendários. Estranha colecção esta, em que se coleccionam dias e meses passados.
Haverá quem coleccione garrafas e latas. Dedais e presépios. Livros e carrinhos de brincar. Haverá quem coleccione bonecas e ganchos. Cromos e revistas. Berlindes e marcadores de livros. Haverá quem coleccione de tudo, uma vez que tudo é passível de ser coleccionável.
E o que coleccionas tu? O que guardas cuidadosamente? O que te coloca um sorriso no rosto sempre que adicionas um novo elemento ao teu conjunto? Eu que já coleccionei tantas coisas e que acabei por as abandonar, neste momento colecciono-te em pequenos fragmentos. Estranha esta colecção composta de ti. Neste momento colecciono-te por cada ausência. Esta é a minha colecção, porque eu faço colecções tuas e de ti.

quinta-feira, Dezembro 02, 2010

Gaveta...

Tudo o que de ti restou ou ainda resta guardei. Deitei fora o que havia de ti e que de nada servia. Rasguei os papéis onde as tuas palavras eram cheias de intenções. Rasguei por ser igualmente fácil, tal como foi para ti escrevê-las. As tuas fotografias não existem mais, apenas a vaga memória delas. Queimei-as e como foi bonito o fogo a lavrar sobre elas e a devorá-las lentamente como um beijo envenenado. Afinal todas as fotografias são apenas isso, vagas e difusas memórias, onde os sorrisos, o contacto e os momentos são encenações momentâneas.
Hoje foi o dia em que tudo o que de ti restou coube num caixa pequena, porque o excedente nunca serviu para mais nada que não ocupar espaço. E tu que tanto espaço e sentidos ocupaste, hoje nada mais és do que uma caixa de tamanho diminuto que cabe numa gaveta. Há que saber prender-te e uma tampa não me deixa sossegado. Nunca sei quando poderás irromper e deixar que a lembrança da tua presença se sente ao meu lado, beba do meu copo e fume dos meus cigarros. É por isso que te exilo naquela gaveta que tranco e cuja chave escondo num local que apenas eu conheço. Porque hoje tu coubeste apenas numa gaveta fechada, ainda que seja a gaveta mais à vista de toda a casa e cuja presença me dilacere a pele.

sexta-feira, Novembro 12, 2010

Estátua...

Na sala mais pequena da galeria, aquela mais obscura e encerrada aos visitantes, existe um pedestal. Nessa sala existe apenas esse pedestal fracamente iluminado que apenas pode ser visto pelos visitantes de relance. Nesse pedestal existe uma estátua de mármore. Uma estátua de cabeça erguida e cujo olhar se crava nas costas de quem por lá passa como se pudesse despir e deixar a nu o que se pretende esconder.
Essa estátua vestida de sombras e de contraluz ocupa o lugar principal. É estranho o destaque que lhe é dado quando a sala está interdita. Essa estátua de mármore parece cinzelada a razões irredutíveis e a feridas por cicatrizar. Quando se olha mais atentamente, o olhar demora-se na perfeição dos acabamentos e na ilusão do movimento...e é nesse instante em que se repara que a estátua está mutilada. Faltam-lhe os braços, outrora decepados numa batalha anterior.
É nesse instante em que penso em ti...esta é a metáfora cinzelada do que ainda existe em mim. Essa é a estátua da minha capacidade de te perdoar. Gélida e incapaz de te acolher e te aconchegar no meu peito uma outra vez.

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape