Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Não em ti...

Porque a minha noite não é igual à tua, porventura nem nunca chegaram a ser iguais. Fui demasiado egoísta para partilhar contigo a noite que tenho por minha, contudo inebriei-te com uma outra noite, com a noite que tu desejavas e que recriei à tua medida. Só não era a minha noite.
Dei-te a transcendência do prazer imediato, um mero encontro de corpos que se reconheciam pelo toque e que adormeciam juntos, mas nunca a entrega e a redenção. Por momentos os nossos corpos falaram a língua da cumplicidade e subverteram todas as regras e princípios. Por momentos fomos significantes e significados, bem como sintaxes e semânticas que se anularam nos arredondamentos das horas. Percorri o teu corpo com sofreguidão procurando encontrar-me em ti e na confusão dos sentidos. Do calor dos corpos, do sal do suor, dos gemidos, da fusão e do prazer avulso.
E hoje não és senão mais um corpo, uma vaga lembrança do que um dia foi estar próximo do amor temporário. Dei-te noites de lua cheia para que não visses eclipses e concedi-te o cálice da entrega sem nunca conhecer o seu travo.
Porque a minha noite não é igual à tua. Porque a minha noite não é tua. Porque posso dormir contigo mas não em ti.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Instante...

Ainda me pergunto quando deixei de te amar? Terá sido quando o silêncio se tornou cómodo? Talvez quando o encontro dos nossos lábios se tornou breve...talvez. Que instante foi esse? Terá sido quando apenas o som dos talheres marcou presença nas nossas refeições ou quando a rotina se sentou ao nosso lado no sofá da sala? Talvez tenha sido quando a água ferveu ou a lenha se consumiu no fogo lento da lareira.
Talvez tenha sido quando a porta do carro bateu com mais força. Talvez, até porque ninguém o saberá dizer.Terá sido quando desarrumaste os meus livros ou quando eu deixei a cama por fazer? Terá sido quando o pó se acumulou sobre a mobília? Quando as molduras tombaram? Talvez esse instante tenha acontecido quando a tua ausência começou a ficar suportável. Talvez tenha sido esse o momento.
Que momento foi esse? Terá sido quando as nossas horas se tornaram desiguais? Terá sido quando deixámos de ouvir a nossa música ou quando as nossas despedidas sabiam a alívio? Que instante foi esse em que deixei de te amar? Se o tivesse reconhecido antes, certamente que a porta entre nós já se teria fechado. Andamos neste jogo agridoce em que nenhum de nós está disposto a desistir primeiro. Nenhum de nós quer reconhecer a nossa derrota e há tanto tempo que perdemos os dois.

Sexta-feira, Julho 31, 2009

Violino...

Há instrumentos que não foram feitos para tocar. Entre nós já há muito que não existem violinos. As cordas não gemem sentimentos e os acordes são mudos. Tentas todas as vezes arrancar a música que julgas aprisionada e que eu sei que não existe. Insistes com os teus lábios e com as tuas palavras, insistes com as tuas mãos e também com o teu olhar. Com as cordas partidas nenhum violino tocará. Assim sou eu.

Sábado, Julho 25, 2009

Campo de batalha

Ao longo do terreno alinhámos fileiras, delineámos estratégias e estudámos as fraquezas de cada um de nós. Pude olhar-te nos olhos e encontrar neles o mesmo fogo que me alimenta, a tenacidade e a certeza da vitória.
Rufaram os tambores e os estandartes erguidos. Avançámos e entre nós os despojos de batalhas anteriores. Corpos inertes que abandonaste e os sentimentos que eu fui matando. As feridas que provocámos e a predação dos afectos. Os beijos de pontas afiadas que prendem e ferem. Os cheiros passageiros que passaram pelos nossos corpos e que nos apressámos a fazer desaparecer. Os ritmos cadenciados dos corpos e o ritual da aproximação para a dissolver em silêncios distantes.
Os corpos e os afectos que mataste aos teus pés e tu seguiste com a certeza de mais um troféu. Do meu lado, os resquícios de quem por mim passou e os estandartes de conquistas anteriores prostrados no terreno. É estranho saber que do outro lado está quem conhece as regras do jogo e que as pode subverter, vencendo-me no meu próprio jogo.
Estamos finalmente frente a frente e então dispo a armadura e abandono o escudo. Deixo cair as armas e olho para trás como que a dizer-te que poderás ser mais um despojo a juntar aos que jazem no terreno. Se jogas o mesmo jogo que eu, então vamos torná-lo justo. Prefiro derrotar-te ou ser derrotado de mãos vazias porque conhecemos demasiado bem as armas do outro.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

Foice...

Há muito que o tempo mudou e as sementes foram lançadas à terra. Revolveste-a com cuidado e foste regando. Aguardaste que as sementes germinassem nas nossas planícies. As tuas planícies, nunca as minhas. Eu sempre preferi terrenos inóspitos e socalcos e nestes só as flores e as plantas mais fortes sobrevivem.
A tua seara começou a florescer e tu depositaste grandes esperanças nesta tua plantação. Eu estava do teu lado e junto vimos os caules dobrarem ao sabor do vento. O mesmo vento que nos percorria a cara e que se escondia nos teus cabelos.
A plantação, fiel depositária dos sonhos, não sobreviveu à passagem do tempo e à aridez dos afectos. As tuas searas foram definhando à merdê da escassez da rega e eu fui a foice na seara dos teus sonhos. A lâmina que decepou todas as tuas hastes e sementes.
Na tua planície surgiram papoilas em vez de searas de trigo. Ondulantes e imperiais. Uma a uma foram despontando entre as searas e quando estas foram ceifadas, apenas as papoilas ficaram. As flores silvestres que não necessitam de cuidados.

Sábado, Abril 11, 2009

Tatuagem...

Tatuámos juntos a passagem do tempo e o acerto dos nossos corpos. Lembras-te?
Sempre preferiste que a minha tatuagem fosse maior do que a tua. Que eu tatuasse o teu nome, como sinal de pertença. Sempre me quiseste mostrar como um troféu. O teu troféu, a maior das tuas condecorações, o topo do pódio.
Eu deixei que me tatuasses o corpo e os olhares, as mãos dadas e as alianças nos dedos. Eu....apenas eu que nem asas me permitiste tatuar porque temias que a tinta tornasse audível o restolhar das minhas penas e voasse para longe de ti.
Tatuei-te a ti no meu corpo, os meus passos fundiram-se nos teus e apenas a tatuagem do teu nome me permitias ser visível.
Tu nunca foste a tatuada, nunca fizeste do teu corpo altares de mim. As tuas tatuagens sempre foram menos profundas no sentimento. Do meu nome tatuaste outro. As tuas tatuagens, aliás, as minhas tatuagens em ti sempre foram tão mais fáceis de apagar.

Sábado, Abril 04, 2009

Laço...

No início uni os nossos lábios com fitas de seda e de beijar, uni os nossos passos com as fitas dos caminhos partilhados e com a certeza das direcções. A minha boca na tua e o teu perfume que se passeava pelo teu corpo e me atraía em certezas concêntricas, como se de uma pedra atirada à agua se tratasse. A distância entre nós que aumentava a cada novo círculo formado.
O teu respirar suave sobre mim enquanto me abraçavas, os contornos da tua boca no meu pescoço quando me beijavas em esboços suaves a carvão. O vestido comprido que te ia desnudando os ombros e que te acariciava enquanto te despia suavemente, bem como o toque da seda pela tua pele em suaves pinceladas de aguarelas de sentimentos. Demasiado diluídas como o encontro das nossas roupas entre passos e beijos dispostos pelo chão, sempre que nos fazíamos reféns dos nossos corpos enlaçados.
Entre nós sempre houve reflexos de pontas soltas e indícios de nós cegos. Fios desfiados e laços imperfeitos como notas desgarradas da melodia. Como cordas partidas nos violinos. Nunca perdeste tempo a apertar os fios e a rematar as pontas. Tu preferias ir soltando os laços que nos uniam suavemente enquanto disfarçavas as tuas pequenas sabotagens. Devolve-me os laços com que te presenteei, tu certamente não quererás os laços que um dia te sufocaram.

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