Segunda-feira, Maio 18, 2009

Foice...

Há muito que o tempo mudou e as sementes foram lançadas à terra. Revolveste-a com cuidado e foste regando. Aguardaste que as sementes germinassem nas nossas planícies. As tuas planícies, nunca as minhas. Eu sempre preferi terrenos inóspitos e socalcos e nestes só as flores e as plantas mais fortes sobrevivem.
A tua seara começou a florescer e tu depositaste grandes esperanças nesta tua plantação. Eu estava do teu lado e junto vimos os caules dobrarem ao sabor do vento. O mesmo vento que nos percorria a cara e que se escondia nos teus cabelos.
A plantação, fiel depositária dos sonhos, não sobreviveu à passagem do tempo e à aridez dos afectos. As tuas searas foram definhando à merdê da escassez da rega e eu fui a foice na seara dos teus sonhos. A lâmina que decepou todas as tuas hastes e sementes.
Na tua planície surgiram papoilas em vez de searas de trigo. Ondulantes e imperiais. Uma a uma foram despontando entre as searas e quando estas foram ceifadas, apenas as papoilas ficaram. As flores silvestres que não necessitam de cuidados.

Sábado, Abril 11, 2009

Tatuagem...

Tatuámos juntos a passagem do tempo e o acerto dos nossos corpos. Lembras-te?
Sempre preferiste que a minha tatuagem fosse maior do que a tua. Que eu tatuasse o teu nome, como sinal de pertença. Sempre me quiseste mostrar como um troféu. O teu troféu, a maior das tuas condecorações, o topo do pódio.
Eu deixei que me tatuasses o corpo e os olhares, as mãos dadas e as alianças nos dedos. Eu....apenas eu que nem asas me permitiste tatuar porque temias que a tinta tornasse audível o restolhar das minhas penas e voasse para longe de ti.
Tatuei-te a ti no meu corpo, os meus passos fundiram-se nos teus e apenas a tatuagem do teu nome me permitias ser visível.
Tu nunca foste a tatuada, nunca fizeste do teu corpo altares de mim. As tuas tatuagens sempre foram menos profundas no sentimento. Do meu nome tatuaste outro. As tuas tatuagens, aliás, as minhas tatuagens em ti sempre foram tão mais fáceis de apagar.

Sábado, Abril 04, 2009

Laço...

No início uni os nossos lábios com fitas de seda e de beijar, uni os nossos passos com as fitas dos caminhos partilhados e com a certeza das direcções. A minha boca na tua e o teu perfume que se passeava pelo teu corpo e me atraía em certezas concêntricas, como se de uma pedra atirada à agua se tratasse. A distância entre nós que aumentava a cada novo círculo formado.
O teu respirar suave sobre mim enquanto me abraçavas, os contornos da tua boca no meu pescoço quando me beijavas em esboços suaves a carvão. O vestido comprido que te ia desnudando os ombros e que te acariciava enquanto te despia suavemente, bem como o toque da seda pela tua pele em suaves pinceladas de aguarelas de sentimentos. Demasiado diluídas como o encontro das nossas roupas entre passos e beijos dispostos pelo chão, sempre que nos fazíamos reféns dos nossos corpos enlaçados.
Entre nós sempre houve reflexos de pontas soltas e indícios de nós cegos. Fios desfiados e laços imperfeitos como notas desgarradas da melodia. Como cordas partidas nos violinos. Nunca perdeste tempo a apertar os fios e a rematar as pontas. Tu preferias ir soltando os laços que nos uniam suavemente enquanto disfarçavas as tuas pequenas sabotagens. Devolve-me os laços com que te presenteei, tu certamente não quererás os laços que um dia te sufocaram.

Sexta-feira, Março 27, 2009

Sótão

No dia em que subiste as escadas e abriste a porta do sótão deparaste com a privacidade do silêncio e dos segredos. No dia em que subiste as escadas contra a minha vontade, deixaste a porta aberta de par em par e permitiste que os teus olhos se habituassem à escuridão e o teu corpo ao cheiro de humidade e de vidas passadas.
Nesse lugar que conheceste contra a minha vontade, violaste o baú antigo onde guardei os brinquedos estragados, as fotos onde nos retratámos a preto e branco e os momentos que nos pertenceram. Nesse lugar sentaste-te na velha poltrona de veludo vermelho ou que outrora fora vermelho e à média luz passaste os teus dedos pelas molduras e pelos pedaços de cristal do pingente que te ofereci e que fizeste questão de o partir na minha frente, num gesto de provocação declarada. Já de pé remexeste nas gavetas onde, um dia, marcaste a tua presença com o teu cheiro e presença e deixaste-as viradas no avesso das palavras e dos lugares onde os nossos corpos se tocaram.
No dia em que subiste as escadas, dobraram os sinos em agonias de bronze, acendeste velas para queimar o que sobrou de mim em ti e nesse teu auto-de-fé, revolveste o que sobrou do único espaço que não te concedi e, antes de sair, deixaste a tua boneca preferida sentada na poltrona bem de frente para a porta, para me recordar que aquele espaço nunca deixaria de ser teu.

Terça-feira, Março 17, 2009

Colar...

Após um longo silêncio de ausência, presenteaste-me com o teu melhor sorriso e um convite para te acompanhar. Pediste-me que usasse o meu melhor vestido porque a ocasião era solene e juntamente com o teu pedido surgiu uma caixa de veludo com um colar de pérolas.
Acedi ao teu pedido e à hora combinada estava pronta com o meu vestido vermelho de cetim que fazia sobressair o colar que me ofereceste. Escolhi este tom de vermelho porque pensei que assim te seria impossível não reparar em mim. Não me beijaste quando te abri a porta.
Deste-me o braço para que todos reparassem que entravas acompanhado, mesmo que o resto da noite não pretendesses fazê-lo. Perante todos foste capaz de dizer o que em privado há muito deixaste de me dizer e sorrias enquanto passeavas as tuas mãos pelas minhas costas despidas de tecido e sobretudo de ti. Deixaste-me só no salão e trocaste-me por conversas circunstanciais.
Elogiaram-me o colar que me tinhas oferecido e só então percebi o quanto ele começou a pesar. Tomei o peso do colar enquanto acariciava cada pérola ironicamente perfeita, juntamente com as quais me ofereceste a tua presença e os sorrisos convencionais perante a presença dos outros e beijos trocados quando alguns olhares pousavam sobre nós. Para ti, sempre fui um adereço para o teu teatro de aparências. O adereço perfeito que se adequava momentânea e exclusivamente ao sabor da tua vontade.
O colar que me ofereceste começou a sufocar-me, tal como a minha cedência ao teu jogo particular. Chamei o teu nome para que me ouvisses e quando me concedeste atenção, levei a mão ao colar e arranquei-o violentamente. Enquanto as pérolas rolaram no soalho, olhei-te nos olhos e afastei-me de ti. Nem nesse momento foste capaz de te dobrar para apanhar as pérolas que nos afastaram.

Nudez...

Despe as roupas que te cobrem a pele que escondes. Despe-as e sente a nudez da tua pele, aquela pele que toco com os dedos e os lábios lentamente. Despe essa pele e sente a minha na tua. Rasga a tua pele, amor. Rasga-a que eu cuido do teu corpo, protejo e cuido como uma flor delicada que renasce sempre que semeada pelas minhas mãos.

Sexta-feira, Março 06, 2009

Janela...

Ainda me recordo de ter visto que a janela estava aberta e hoje tenho a certeza de que tu também a viste. Estava aberta, mas não o suficiente para me perturbar. Nunca o suficiente para te perturbar. E assim seguimos em indiferença, afinal para nós era apenas e só uma janela.
Neste quarto que um dia foi nosso ainda se respira luxúria e desejos carnais, ainda te respiro quando fecho os olhos e te vejo chegar a mim. Ainda oiço os teus passos sobre o meu silêncio, ainda sinto o teu toque quando a noite tinha laivos de entrega e nos prendia em partilhas de cigarros, a nossa breve reconciliação com a finitude do acto em si e com a crueza dos nossos modos de sentir.
Nenhum de nós confessou quem deixou a janela aberta. Talvez tenha sido eu. Talvez tenhas sido tu. O teu lado da cama ainda sente a falta do teu corpo e eu neste momento ainda procuro encontrar o teu cheiro e o som das cores com que pintavas o encontro dos nossos corpos. Ainda procuro o teu cheiro no meu corpo, aquele aroma de proximidade e de suor com que me impregnavas enquanto fomos um só corpo, enquanto te olhava nos olhos e bebia o néctar da comunhão pelos teus lábios. E hoje respiro apenas o cheiro que a tua ausência provoca em mim. Esse cheiro que se mistura com o ar saturado de cigarros solitários.
Afinal a janela esteve aberta tempo demais para nós os dois e nenhum de nós pareceu reparar que enquanto esteve aberta tudo o que um dia foi nosso se desfez. O nós deixou de existir e deu lugar a um eu e a um tu diferenciados. E não houve surpresa, apenas constatações. Cruzaste a ombreira da porta, voltaste-te para mim e disseste-me para eu fechar a janela.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Carvão...

Sob a ponta afiada do lápis vou esboçando os contornos do teu corpo a traço fino em aproximações de ti. Vou desenhando o relevo do teu peito e as formas que tão bem conheço ao toque das minhas mãos. Esboço as tuas mãos onde me guardas a vida e o sentir e acaricio os teus dedos, procurando segredar-lhe murmúrios e os caminhos que nos conduzem um ao outro.
Dedico-me ao teu rosto, delineando os teus lábios decalcados de tantos beijos. Pedidos. Roubados. Trocados. Profundos e intensos. Reconhecê-los-ia de olhos vendados, porque eles superaram os meus sentidos. Traço a traço desenho-te o rosto acetinado suavemente, as feições que me deixas gravadas no corpo. Dedico-me aos teus olhos, sombreando o que trazes no olhar e que tem o cheiro da rebentação das ondas sobre a areia no movimento perpétuo que te traz a mim para logo depois nos afastar. Desenho-te cada fio de cabelo e ganhas vida a carvão, onde posso jurar que os teus lábios me beijam os dedos.
Retrato-te em esboços vários e sorrio, mas tu és apenas carvão sobre o papel. Passo a borracha e apago cada traço do teu corpo para te recriar uma vez mais.

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape